Ovomaltine com pera

Antes que alguém diga alguma coisa, sim, eu sei que nenhuma pessoa é igual à outra e a TSKF foi desenhada pensando exatamente nisso. Procuramos tratar todo mundo de maneira diferenciada, mas, isso não significa que não vamos trabalhar para transformar molóides em homens de fibra, forjados a fogo e ferro. Isso é nossa obrigação e dever enquanto Mestres de Kung Fu. E aqueles que não forem se fortalecendo e acompanhando o ritmo ficarão pelo caminho. A peneira do Kung Fu tem buracos muito largos.

As pessoas nos procuram por muitas razões e uma delas é para se tornarem mais fortes e mais disciplinadas para enfrentar a vida. Entretanto, na maioria das vezes, no primeiro aperto que damos, o sujeito choraminga, faz biquinho e vai embora.

Não sei por qual razão, mas, de trinta ou quarenta anos pra cá foi sendo criada uma geração de frouxos. Eu costumo dizer que a quantidade de vacilão subiu assustadoramente. Os pais fazem tudo o que os filhos querem e eles se transformam nesses molóides que vemos por aí. Normalmente, os pais acham que se não fizerem o que seus filhos querem eles crescerão revoltados. Na verdade, hoje em dia, o que a maioria da molecada está precisando mesmo é de uma boa surra de cinto daquelas que deixa vergão, mas, nos tempos atuais isso é crime, os pais não têm mais o direito de corrigir seus filhos da maneira que eles próprios foram corrigidos. Sim, antigamente não havia problema algum em dar umas palmadas nos filhos se eles fizessem alguma malcriação.  O que ocorre é que, mesmo com esse discurso protetor sobre o qual não vou discutir aqui neste texto, os pais podem e devem ter o controle sobre seus filhos, caso contrário, é isso aí que acaba acontecendo, essas crianças se tornam indivíduos frouxos perante uma sociedade que exige mais e mais das pessoas.

Precisamos de homens de verdade, homens que não se abalem por qualquer coisinha, homens que não entrem em depressão porque perderam o seu emprego, sua mulher ou sua namorada. Quando estou falando de homens estou me referindo aos seres humanos, ou seja, homens e mulheres. Precisamos de homens de palavra, honestos, leais e de confiança.

Você sabia que quase 100% dos nossos alunos que reprovam no exame de faixa desistem da academia? Pois é, dá vontade de colocá-los no colo e dar umas boas palmadas. Alguns de vocês devem estar dizendo: “Ei, ei, pera aí, esse não sou eu. Eu sou forte, eu não sou assim.”. Pois bem, eu já tive faixas pretas Primeiro Tuan que desistiram de treinar porque reprovaram no exame. Sei, sei, você é forte enquanto não acontece com você, conheço bem essa história.

Dá raiva de ver os pais criando molóides. Recentemente, uma garotinha reprovou no exame de faixa e saiu chorando. O pai, todo cheio de sabedoria, veio correndo e a abraçou dizendo: “Vamos embora daqui, vamos treinar lá naquela outra academia, lá você vai conseguir mudar de faixa.”. Senti pena daquela garotinha.

Estamos aqui para forjar gente forte, gente de fibra, de palavra; gente com o espírito do guerreiro que não se abala por nada e que morre de pé. As pessoas, hoje em dia, vivem se pronunciando sobre o espírito marcial, espírito do guerreiro e blá, blá, blá, sem ter a menor ideia do que estão falando. Então, eu vou contar alguns casos ocorridos comigo ao longo desses trinta e poucos anos treinando Kung Fu.

Na época em que eu praticava Kung Fu, eu treinava as segundas, quartas, sextas e sábados à tarde, na aula especial, que ia das 14h00 até quando o Mestre quisesse parar; ou seja, não tinha hora pra terminar, às vezes, acabava às 16h00, outras vezes, às 18h00 e outras lá pelas 22h00 ou mais. Em um desses treinos eu perdi quatro quilos. O que acontecia nos treinos, ou seja, como eram as regras e como a gente treinava, eu conto algum dia pra vocês. Antes que eu me esqueça, nessa mesma época, eu treinava ginástica aeróbica, as terças e quintas e, aos domingos, eu corria dez quilômetros, na USP, com um amigo meu.

Naquela época, com aqueles treinos duríssimos, desloquei o ombro direito três vezes. Você pensa que eu parei de treinar? Não, não e não. Pedi à minha esposa que fizesse uma tipoia de elástico para que eu pudesse prender o ombro e ele não deslocasse e ia treinar normalmente. E não fique aí pensando que eu não fazia as flexões de braços, não. Quem já deslocou o ombro sabe que, pelo menos da primeira vez, você chega a vomitar de tanta dor.

Nesse mesmo período, jogando futebol de salão pela empresa para a qual eu trabalhava, eu torci feio o pé e fui ao ortopedista e ele me engessou. Ocorre que no domingo, meu amigo passou em casa para irmos correr os habituais dez quilômetros na USP. Como eu tinha combinado com ele e eu não gosto de descumprir a palavra, falei para ele esperar um pouco, peguei uma faca, serrei o gesso e fui correr os dez quilômetros. Palavra é palavra.

Numa outra época, eu não estava me sentindo muito bem, mas, esse mesmo amigo passou em casa novamente para irmos correr, então, eu fui. No meio da corrida, tive um mal estar e comecei a peidar muito. Isso mesmo, pode rir, mesmo passando mal eu resolvi que tinha que terminar os dez quilômetros. No outro dia, fui ao banheiro e defequei como borra de café, só aí, então, fui ao médico. Sabe o que o médico me disse? Disse que eu estava com hemorragia interna e que eu não podia sair dali sozinho. Falei para ele que eu ia para casa e ele insistiu que não. Fim da história, meu amigo teve que ir buscar o meu carro e eu fiquei internado por uma semana.

Em 1996, montei a primeira TSKF. Nessa época eu trabalhava na Seguradora, das 8h00 às 17h00, saía correndo do serviço e entrava na academia para dar aulas, sozinho, no primeiro horário, que era às 18h00. Montei a minha primeira academia sozinho e ainda trabalhava o dia todo na Seguradora, mas isso já é outra história para outra ocasião. O fato é que aconteceu outro episódio depois de um mês que eu havia aberto a academia. Jogando futebol eu pisei em um buraco no gramado e tive uma semi-ruptura no Tendão de Aquiles. Sabe quanto tempo eu demorei para sarar dessa lesão? Sete anos. Sabe quantas vezes eu deixei de dar aulas por causa disso? Nenhuma. Sabe quantas vezes eu reclamei para algum aluno que estava lesionado? Nenhuma. Eu não tinha para quem reclamar, eu só podia fazer duas coisas: desistir ou continuar. Escolhi continuar.

Em 2003, por conta do campeonato mundial de Kuoshu que iria acontecer no Brasil, eu fui convidado para organizar uma demonstração com cem alunos. Até aí, maravilha. Eu adoro Kung Fu e gostei da ideia. Foi assim que começaram os treinos no Parque do Ibirapuera que continuaram por muito tempo com o nome de ShowTeam. Bom, vocês devem estar pensando: “Mas, o que isso tem a ver com o papo até agora?”. Acontece que, nessa ocasião, eu tinha hemorroida e naquele mês específico ela estava verdadeiramente atacada. Ela tinha o tamanho de uma jabuticaba e, provavelmente, era da mesma cor; e doía pra caramba por causa do frio do mês de julho. Os treinos no Ibirapuera começavam às 08h00 da manhã, então, eu levantava às 06h00, esquentava água, colocava numa bacia, colocava permanganato de potássio e fazia meia hora de banho de acento para amenizar a dor. Certo dia, eu estava fazendo o banho de acento e, quando levantei da bacia, percebi que no fundo havia uma pelota esquisita parecida com fígado, então, enfiei a mão na bacia e peguei aquele troço que era uma coisa nojenta. Sabe o que era? Era sangue coagulado da minha hemorroida que havia estourado. Nesse momento, eu tinha duas opções: largar o pessoal me esperando no Ibirapuera, simplesmente não aparecer e depois dizer que estava doente; ou ir daquele jeito mesmo. Escolhi a segunda opção. O problema é que eu estava sangrando pelos fundilhos. Então, tive a ideia de pedir para minha esposa um absorvente e lá fui eu dar o treino como uma mulherzinha, afinal de contas, palavra é palavra. Pergunta se alguém percebeu minha cara de sofrimento e se eu reclamei de alguma coisa. Não senhores. Nada disso aconteceu. Eu não tinha para quem reclamar. Nós temos que ser fortes e homens de palavra. É por essas e outras razões que jamais aceito desculpas de ninguém e sempre digo: “As desculpas, mesmo quando verdadeiras, não levam a nada.”.

Da próxima vez que você for choramingar ou dar uma desculpa, pense muito bem e decida se você quer ser um homem honrado, de fibra e de palavra ou se vai preferir tomar o seu Ovomaltine com pera e chorar no colinho quente da mamãe.

Mestre Gabriel Amorim

 

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