A ação cura o medo

Minha infância e adolescência, e boa parte da minha vida adulta, foram marcadas por uma enorme timidez e, como sabemos, a timidez é um dos maiores empecilhos para quem deseja ter sucesso. Uma pessoa tímida está fadada a perder muitas oportunidades.

Eu me sentia amargurado quando queria falar com uma garota, eu tinha muita vergonha. Tinha vergonha de dançar, de falar em público e, pior, eu tinha vergonha de expor minhas ideias, isso estava me incomodando e, naturalmente, me limitando.

Aos 23 anos comecei a treinar Kung Fu e, de repente, tudo começou a mudar. Passei a ter mais coragem. Acho que o fato de sermos obrigados a superar vários obstáculos no Kung Fu, como, por exemplo, ficar na posição do cavalo por vários minutos, suportar treinos duros, executar técnicas diante dos colegas, passar pelos exames de faixa, tudo isso começou a influenciar os demais aspectos da minha vida.

Mestre Danillo Cocenzo, em um dos seus excelentes textos, mencionou o seguinte: “Os desafios que você não enfrenta se transformam no seu limite”. Quando li esse texto, lembrei-me da técnica que uso para enfrentar meus desafios e ampliar meus limites e resolvi escrever sobre isso também.

Eu adoro contar causos para ensinar ou explicar alguma coisa, por isso, para falar sobre essa técnica contarei algumas histórias, porém, devo alertar para o fato de que essa técnica não funciona com todas as pessoas, ela é eficaz somente para homens de palavra (para a turma do politicamente correto, especialmente para as feministas, homens, aqui, tem o significado de coletivo, ou seja, quer dizer que estou falando de seres humanos). Um dos meus traços mais fortes é cumprir com a palavra, se eu disser que vou fazer alguma coisa, pode ter certeza que vou (qualquer um dos meus sócios pode confirmar isso). Acredito que ser desonesto consigo mesmo é um dos maiores tipos de desonestidade, não ter palavra é a pior coisa que uma pessoa pode fazer para si mesma.

Minha técnica para superar desafios trata-se exatamente disso. Como sou um homem que não volta atrás com o que diz, toda vez que eu tenho que superar um desafio, eu simplesmente dou a minha palavra, assim vou cumprir de qualquer jeito o que me foi proposto, faça sol ou faça chuva.

Certa ocasião, quando meu Mestre disse que eu estava preparado para fazer o exame de faixa, eu dei minha palavra que faria e me inscrevi. Dada a palavra, tenho que cumprir, pois, para mim, trata-se de honestidade e honra comigo mesmo e com o meu Mestre. Em outro momento, quando meu Mestre me perguntou se eu podia participar de uma demonstração, eu tremi na base, porém, eu precisava superar minha timidez e, portanto, respondi que sim, que faria a demonstração; assim sendo, palavra dada deve ser cumprida e, no dia da apresentação, lá estava eu superando minha timidez.

Outra situação que me vi obrigado a enfrentar meus medos, foi quando meu Mestre me pediu para puxar uma aula, tremi de novo, mas, dei minha palavra e, no dia, lá estava eu tremendo e puxando a aula.

Essa postura foi se expandindo para a minha vida pessoal. Certa vez, no trabalho, participei de um processo dentro da companhia no qual tínhamos que desenvolver um projeto de qualidade. Ocorre que depois do trabalho concluído, o projeto deveria ser apresentado para a presidência e diretoria da empresa. Um dos integrantes do grupo disse que apresentaria, porém, pouco antes da apresentação, ele deu uma desculpa e arregou. Mais uma vez, eu dei minha palavra e me comprometi a apresentar o trabalho. Falar em público, para uma pessoa tímida como eu, era inconcebível, mas, lá fui eu. No dia da apresentação tive que ir mais de dez vezes ao banheiro por causa do nervoso que passei, nunca caguei tanto na minha vida, contudo, como eu havia dado minha palavra, apresentei o trabalho.

Outro causo que marcou a minha vida foi quando resolvi abrir a TSKF. Nessa ocasião, eu ainda trabalhava das 8h até às 17h. O desafio era grande, porém, eu havia dado a palavra para mim mesmo que montaria a empresa, então, fui em frente. Eu só não imaginava que o desafio seria tão grande. Eu teria não somente que dar aulas, mas, também, falar em público, dirigir exames, organizar e conduzir demonstrações e mais uma infinidade de coisas.

Pois bem, a TSKF foi crescendo e com ela os desafios. Ainda me lembro do dia em que me ligaram da TV Record me convidando para participar do programa do Ronnie Von. Eu poderia ter dado uma desculpa e deixado minha timidez me vencer, mas, resolvi que daria a minha palavra e aceitei o convite. Disseram-me que iriam me fazer perguntas sobre Bruce Lee; não deu outra, li um livro todo sobre Bruce Lee em um único dia. Na data combinada, lá estava eu, cagando de medo de novo, mas, eu tinha dado a minha palavra, obviamente não podia voltar atrás, de jeito nenhum. Depois disso participei de muitos outros programas de TV e, sabe de uma coisa, cada vez tive menos medo.

Agora, vejam, se falar em público já me dava caganeira, imaginem falar em inglês. Foi o que eu tive que fazer em 2004, quando, pela primeira vez me inscrevi para ser árbitro, em Baltimore, Estados Unidos. Malemal eu conseguia falar “the book is on the table”, mas, enfrentei o desafio e lá fui eu suando a viagem inteira. O que aconteceu durante a arbitragem foi do cacete, mas, isso já é outro causo. Uma coisa é certa, não tive caganeira, porém, o nervoso foi tanto que fiquei com o intestino preso, sinceramente, não sei o que é pior.

Outro desafio para mim foi dirigir nos Estados Unidos. Já há alguns anos eu dirijo por lá, mas, isso também foi um obstáculo para mim, que acabei enfrentando e superando. Para me organizar melhor, quando viajo para os Estados Unidos, eu sempre reservo o carro aqui no Brasil, entretanto, este ano, recentemente quando estive em Baltimore, não fiz a reserva do veículo antecipadamente. Quando cheguei lá resolvi alugar um carro e ao chegar à empresa para efetuar o aluguel não tinha ninguém na recepção para me atender, então, uma mocinha me apontou um daqueles toten e disse que eu tinha que fazer a reserva por ali. Pensei comigo mesmo: “Pronto. Fodeu!”. Mas, resolvi enfrentar o contratempo. Havia um telefone e uma tela com uma pessoa do outro lado para eu ligar e tratar com ela, ou seja, escolher a marca, modelo, tamanho, seguro; tanque cheio, vazio; passar nome, endereço; mostrar a carta, passaporte, telefone, milhões de coisas. O resultado foi que, deu trabalho, mas, não foi nada mal para quem não falava nem “the book is on the table” em 2004.

Outra coisa que sempre foi muito difícil para mim, foi escrever. Isso sempre se tornou um grande desafio, sobretudo por medo da crítica, especialmente, por causa do meu português que não é lá grande coisa. Entretanto, de 2004 para cá, já escrevi cinco livros, dois deles lançados pela Madras Editora em duas Bienais Internacionais consecutivas em São Paulo e Rio de Janeiro. Esse foi outro obstáculo que eu superei porque dei a palavra a mim mesmo que eu ia fazer e fiz.

Resolvi fazer este texto principalmente para as pessoas que vivem inventando desculpas para si mesmas a fim de não enfrentar seus desafios. Assim, concluo com pensamentos que a maioria dos que convivem comigo conhece: “As desculpas, mesmo quando verdadeiras, não levam a nada”; “Experiência não é o que lhe acontece, mas, sim, aquilo que você faz com que lhe aconteça” e, finalmente, “A ação cura o medo”.  Portanto, enfrente seus desafios, sejam eles quais forem, porque, mais tarde, você vai olhar para trás e ver o quanto eles se tornaram pequenos.

Mestre Gabriel Amorim

Mestre Gabriel
Mestre Gabriel

Praticante de Kung Fu desde 1980, fundou a TSKF Academia de Kung Fu em 1996, graduado Mestre pela Confederação Mundial de Kuoshu. É escritor, palestrante, ocultista e estudioso da entidade humana.

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